Imagem: Pixabay

 

Convidei a Dona Livônia para contribuir com uma história para aquecer o coração de vocês porque ela adora histórias: escreve suas narrativas, contou muitas para os filhos e hoje conta para os netos.

É uma delícia ouvi-la contar uma história! Eu tive esse privilégio.

A narrativa que ela escolheu tem uma qualidade: é um conto de fadas (dos Grimm) que passou pela cultura oral do povo, ou seja, teve transformações, se a comparamos com o texto “original” que conhecemos da literatura. Mas isso torna o texto mais rico e vivo!! Ao final, ela conta o nome do conto original.

Desejo que vocês ‘escutem’ a voz dessa senhora enquanto lerem, que registrou o conto que ouvia quando criança, para nos presentear.

 

 

Olá,  sempre gostei de histórias e de imaginar as cenas.  E quero contar uma que minha mãe contava para  nós (9 filhos).

Gostávamos de ouvir e de tempos em tempos pedíamos que ela nos contasse novamente, mesmo sabendo as cenas seguintes e nos preparávamos com as caras de expectativa de acordo com a narração:

 

A agulha no poço

 

Num tempo longínquo e num reino distante havia uma jovem de uns 17 anos que morava com o seu pai, já não tinha mais a sua mãe.  Ele era um comerciante e viajava com frequência por todos os reinos vizinhos oferecendo seus produtos, porém ficava preocupado com a filha sozinha em casa.  Pensando muito, decidiu que precisava se casar com uma senhora viúva que tinha duas filhas de idades parecidas com as da sua filha.  Imaginou que seriam boas companheiras.

E assim foi feito, ele se casou com a senhora e ela e suas filhas foram morar na casa do comerciante.  Nos dias em que ele estava na cidade, a senhora era gentil com a enteada e nos dias em que o pai viajava, ela mandava a jovem trabalhar nas tarefas domésticas e carregar baldes de água do poço para abastecer a casa. Porém, a senhora mimava de forma exagerada as filhas sem lhes dar ocupações semelhantes. E com essa atitude, as irmãs eram mandonas e desagradáveis para com a jovem.

Com isso, terminados os serviços dentro de casa, a jovem pegava os bordados que ela gostava de fazer e ia sentar-se na beira do poço, num lugar agradável e fresco na sombra das árvores, para se ocupar com uma tarefa prazerosa entre linhas coloridas e flores riscadas no tecido.

Numa das tardes em que ela estava bordando, por descuido, deixou a sua agulha cair dentro do poço.  Pensou: – ‘E agora?’

Precisava da agulha, então resolveu mergulhar nas águas do poço para recuperá-la.  E foi nadando e descendo e para sua surpresa, ao chegar embaixo, encontrou uma casinha com quintal  e árvores.  Caminhando e olhando em volta aquela novidade, ela ouviu uma voz gritar:

– “Socorro, tirem essas maçãs dos meus galhos, se não eu vou quebrar”.

A jovem viu um cesto na porta da casa, pegou e colheu as lindas maçãs.  Logo a seguir ouviu outro grito:

– “Socorro,  tirem-nos do forno, senão vamos queimar”.

Ela entrou na casa segurando um pano, retirou do forno os pães que estavam assando. Olhando em volta, viu que a casa estava desarrumada e foi organizando o ambiente. Dobrou as roupas, guardou as louças, arrumou as cadeiras em volta da mesa. E de repente, ouviu um barulho de gente se aproximando, então ela correu e se escondeu atrás da porta. Alguém entrou e falou:

– “Por ajudar a socorrer as maçãs e os pães.  Por organizar minha casa darei a ela uma estrela na testa”.

E  ‘Plim’… a jovem sentiu a estrela e saiu detrás da porta.  Encontrou uma fada que lhe devolveu a agulha. E no momento de partida a jovem agradeceu.  Neste momento sua fala era perfumada.  Nadando, retornou à beira do poço.

As filhas da senhora foram se encontrar com a jovem para ela costurar algumas roupas que estragaram e cheias de mando, exigiam pressa.  A jovem foi-lhes dizer para deixar as peças ali …. e aconteceu que  sua fala perfumada e cheia de flores jorraram de sua boca.

As filhas da senhora, muito surpresas, perguntaram como ela conseguiu aquele dom.  Ela contou.  E apressadas, pegaram a agulha e jogaram dentro do poço.  Mergulharam logo a seguir.  Nadando, chegaram ao fim do poço e encontraram a casinha e o pomar.  Porém, ao ouvirem o pedido de socorro das maçãs, responderam:

– “Que quebrem!” –  e não pegaram o cesto.  Logo a seguir ouviram os pães pedirem socorro e a resposta foi:

– “Que queimem!”

Ao procurarem a agulha, elas bagunçaram mais e mais a casa.  E então, ouviram o barulho de passos lá fora.

Correndo, foram se esconder atrás da porta. Alguém entrou, olhando tudo em volta e disse:

– “Quem estiver atrás da porta receberá uma ferradura de cavalo na testa”.

E ‘Plim’… As irmãs sentiram a ferradura na testa. Saindo detrás da porta elas viram a fada e foram perguntar sobre a estrela… nisso,  um cheiro muito ruim de esgoto, pulgas, minhocas e lagartixas pularam de suas bocas.

A fada lhes disse que por elas não serem gentis e não terem auxiliado as maçãs e os pães, além de fazerem uma bagunça maior na sua casa, receberam o que mereciam. A ferradura. E retornando para casa com a ferradura na testa, elas foram contar o acontecido para a mãe  que fugiu da sala por não suportar o cheiro ruim delas ao falarem.  Assim, elas ficaram morando num quarto no fundo da casa.

A jovem  -por ter a estrela na testa – foi sendo comentada pelo povo. Um príncipe que passava por ali quis conhecê-la. E ao ver os encantos da jovem, ele pediu para lhe fazer a corte.  Dessa forma, a jovem encontrou o seu par e companheiro, não ficando mais só”.

 

Ao narrar essa historia para a Ana Flávia ela me sinalizou a semelhança com a história dos Irmãos Grimm de título  Senhora Holle, Dona flocos de neve.

 

Livônia Maciel – artesesã da @mimosliv

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