Na Semana Especial Abelhas, hoje é dia de passear pelos Mitos!

 

Um mito tenta explicar, por meio de narrativas, os grandes mistérios, fatos da realidade, fenômenos da natureza etc, que envolvem os seres humanos e o universo que o circunda.

O ser humano sentia (e ainda sente) a necessidade de dar sentido às suas vivências, de explicar o funcionamento do mundo e das coisas. Nessa busca por entendimento e sentido, surgiram os mitos. Assim, cada cultura, cada povo criou a sua mitologia, embora muitos associem “mitologia” apenas aos gregos, pois conhecemos mais alguns deuses e histórias da mitologia grega.

Poderíamos aprofundar esse assunto olhando para as funções do mito, as diferentes mitologias ao redor do mundo, o caráter simbólico-imagético dos mitos, a relação do mito com o rito/ritual, os tipos de mito (cosmogonias, mitos fundadores, de destino, de renascimento, de seres superiores…) e tantas outras particularidades sobre os mitos que são deliciosas de estudar!

Mas, ficaremos agora com a mitologia das abelhas!

A mitologia das abelhas é encontrada em muitas culturas antigas, em que o mel era caçado e as abelhas eram consideradas um presente dos deuses. Cada mito explica algo sobre abelhas e apicultura. Há um livro do Claude Lévi-Strauss, Do mel às cinzas – Mitológicas 2, (Cosac Naify, 2005), no qual encontramos alguns mitos da América do Sul e do Norte relacionados ao mel. Para quem gosta desse tipo de abordagem, vale a pena conhecer o livro*.

 

Hoje vou contar mitos de outros lugares, recolhidos de outras fontes, que traduzi do inglês. Eles são ótimos para usarmos com crianças mais velhas e adultos, ou mesmo para contarmos uma “curiosidade” para crianças menores, como é o caso dos pássaros Honey guide do Zimbábue.

Tenho certeza de que você viajará para vários lugares do mundo, através dos mitos abaixo.

 

 

África

Bosquímanos do deserto de Kalahari contaram esta história da criação:

 

A Abelha era uma criatura gentil. Uma noite, Mantis precisava atravessar um grande rio inundado para alcançar sua família e pediu ajuda à Abelha.

A Abelha se ofereceu para carregar Mantis em suas costas. Ela voou sobre as águas furiosas, mas foi derrubada por um vento forte. A Abelha estava perigosamente perto das ondas quando viu uma flor magnífica flutuando sobre a água. A Abelha colocou Mantis na flor, caiu ao seu lado e morreu de exaustão. Quando o sol nasceu, enrolado na flor estava o primeiro ser humano – o sacrifício da Abelha.

 

Zimbábue

 

O pássaro-guia africano leva uma pessoa ao ninho de abelhas, espera que ela retire um favo de mel e come os restos de cera deixados para trás. Aqui está um conto popular do Zimbábue que explica o porquê:

Um dia, o pássaro Guia do mel voou para visitar uma colmeia. Ele exigiu que as abelhas lhe dessem uma esposa. As abelhas pensaram nisso por um tempo, mas depois disseram que não. Guia do mel ficou bravo e disse que contaria aos humanos onde elas moravam. Desde então, quando ele vê pessoas passando, ele diz a elas onde encontrar as abelhas.

 

Para mais informações sobre esse pássaro encantador:

http://pioneiro.clicrbs.com.br/rs/geral/mundo/noticia/2016/07/cientistas-analisam-relacao-de-cooperacao-entre-aves-e-humanos-6773704.html

https://istoe.com.br/os-homens-que-conversam-com-passaros/

Vídeo – How honeyguide birds talk to people:

https://www.youtube.com/watch?v=hGC4nG0RqYI

 

Brasil

Esse mito conta como os ninhos das abelhas foram criados:

 

No começo, o mel era encontrado em vasos enormes no chão e as pessoas comiam o quanto quisessem. Os deuses olharam para baixo e ficaram muito descontentes. “Esses humanos estão se tornando gordos e preguiçosos”, disseram eles. Os deuses ordenaram que as abelhas construíssem favos de mel nas altas árvores da floresta. Agora as pessoas teriam que trabalhar duro para subir e pegar o mel.

 

Tailândia

Este conto popular explica por que as abelhas constroem o favo em locais aconchegantes, como troncos de árvores:

 

Há muito, muito tempo, os elefantes não tinham trombas. Um dia, um terrível incêndio florestal varreu a terra. Para escapar da fumaça, as abelhas se esconderam dentro da boca dos elefantes. Os elefantes bramiam furiosamente, mas as abelhas não saíam. Os elefantes sopraram com tanta força que suas bocas se esticaram em trombas. Em desespero, os elefantes inspiraram a fumaça ardente do fogo e as abelhas, finalmente, caíram fora. Desde então, as abelhas sempre constroem favos de mel em árvores ocas, porque isso as lembra das trombas de elefante.

 

Austrália

Os aborígenes têm histórias sobre abelhas transmitidas ao longo de centenas de anos por contadores de histórias. Esse mito foi transmitido por Gloria Matthews, anciã aborígine em Mt Druitt:

 

Um dia, Bahloo, a Dama da Lua, olhou lá do céu para baixo e viu os caçadores de mel. Eles pegavam seus machados, abriam uma árvore e puxavam o favo para fora. Ela sabia que os caçadores sempre deixavam pra trás um doce para ela. Eles colocavam um pedaço de favo no tronco caído e depois iam embora. Bahloo desceu e colocou o seu braço dentro a árvore. Mas seu braço ficou preso e ela não conseguia se mexer. Bahloo ouviu um barulho estranho e quando se virou, viu muitos seres da grama que se aproximavam. Eles libertaram o seu braço para que ela pudesse voltar ao céu. Para recompensar sua bondade, Bahloo envia gotas de orvalho para a grama todas as noites.

 

Afeganistão

Najaf Mazari conta esse mito sobre a parceria entre abelhas e humanos em seu livro, The Honey Thief:

 

Nos primeiros dias, as abelhas viviam em árvores ocas e construíam khani zambure (favo de cera) para armazenar o mel. Elas tinham mel o suficiente para se alimentar. Um dia, um humano descobriu a pequena fábrica das abelhas e decidiu construir uma melhor. Ele fez caixas azuis e brancas e as abelhas adoravam viver nelas. Elas tinham espaço para armazenar mel suficiente para si e para o humano.

 

 

*Sinopse do livro citado, encontrada no link:

‘Do mel às cinzas’, segundo volume das Mitologias de Claude Lévi-Strauss, é uma sequência de ‘O cru e o cozido’. Esse livro, que acompanha o motivo do mel (e do tabaco, as cinzas) entre a América do Sul e a América do Norte, amplia o campo semântico do primeiro volume. Aqui, o sentido da passagem da natureza para a cultura se inverte – o percurso é regressivo da cultura em direção à natureza, protagonizado pelo poder sedutor do mel. Elemento ambíguo, pois se oferece, na natureza, pronto para o consumo cultural, o mel ganha centralidade no pensamento ameríndio ao carregar um duplo significado, um próprio (alimentar) e outro figurado (sexual), como sugere a expressão ‘lua-de-mel’ em diversas línguas ocidentais. Por detrás dessas figuras de linguagem, Lévi-Strauss descortina princípios do pensamento humano.

 

História anterior:

O baobá e as abelhas

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