A 4ª história da Semana Especial – Histórias de Primavera (de 17 a 22/09) eu trouxe das minhas memórias de infância.

Lembro-me de ter ficado um bom tempo ‘fixada’ nessa narrativa, pensando como uma menina poderia nascer e viver em uma flor?! Como a mulher que a colheu era bondosa!  E sentir uma certa rejeição pelo sapo e a toupeira…

 

 

“Pequerrucha” é um conto de H. C. Andersen, também encontrado com o título “A Polegarzinha” (em inglês, Thumbelina) ou “Mindinha”.

 

Tenho duas versões da história, mas a que apresento é do livro da minha infância Fábulas Encantadas (e tem uns versos bem bonitos no meio).

 

 

 

Ah, essa história pode ser contada a partir dos 4 anos de idade.

Espero que se delicie com esse texto, que tem tudo a ver com a primavera!

Um forte abraço,
Ana Flávia Basso, do Educar com Histórias

 

“Pequerrucha”   (H. C. Andersen)

 

Esta é a estória de uma menina

nascida de uma flor

e que sendo tão pequenina

muitas aventuras viveu.

Criada com todo o amor

pela jovem Vicentina,

vejam como nossa heroína

tudo enfrentou com valor.

 

 

Era uma vez uma moça que gostava muito de flores. Chamava-se Vicentina. Passava todo o tempo livre cuidando do seu jardim, podando, adubando, regando as plantas. Mas vivia sozinha e triste, pois não tinha com quem conversar. Um dia, as flores, que ela tratava com tanto carinho, reuniram-se e decidiram ajudá-la. Então deixaram cair uma semente especial. Vicentina encontrou a sementinha e…

– Que semente estranha! Talvez dê uma linda flor… Vou plantá-la neste vaso.

A sementinha germinou. Devagarinho foram surgindo as folhas, primeiro uma, depois outra e mais outra… Até que apareceu uma linda flor vermelha. Era uma tulipa, tão grande e bela que Vicentina ia admirá-la todos os dias. Quando a flor se abriu, no meio das pétalas apareceu uma menina loura e bem pequenina.

 

Bom dia, ó Vicentina!

Não fique tão espantada,

por ser eu tão pequenina

Pequerrucha sou chamada.

 

Se comigo for boazinha

sua filha eu serei.

Junto de minha mãezinha

para sempre ficarei.

 

– Oh! Como estou contente! – exclamou Vicentina. – Este é o mais belo presente que minhas flores poderiam me dar!

Vicentina levou Pequerrucha para casa. Com uma casca de noz fez um bercinho para ela e cobriu-a com uma pétala de rosa. O tempo foi passando, mas Pequerrucha não crescia nem um milímetro. Vicentina sentia-se feliz por ter em casa uma filha, embora pequenina. Pequerrucha tinha uma bela voz e sempre cantava para alegrar Vicentina.

Pequerrucha:

Lindas flores da margarida,

meus cabelos são dourados,

pelo vento ondulados

e cantando levo a vida.

 

Velho Sapo:

Com moça tão bonita,

meu filho quero casar.

Falo sério, não é fita,

e uma festa vamos dar!

 

Uma tarde, Pequerrucha estava cantando e um velho sapo a ouviu. Nessa mesma noite, o velho sapo entrou na casa de Vicentina. O vidro da janela estava quebrado e ele passou pelo buraco.
Parou um momento para olhar a menina, que dormia serenamente. Como era linda!

O velho sapo não resistiu, raptou-a com berço e tudo. Quando o filho do sapo viu a menina, achou- a tão bonita que quis acordá-la imediatamente.

– Quero ver a cor dos olhos dela! – disse ele.

– Espere, meu filho. Não tenha pressa. Se você acordar já, ela pode se assustar e fugir correndo. Devemos fazer outra coisa: enquanto ela está dormindo, vamos colocar o berço sobre uma folha bem grande, no meio do lago. Assim, ela não poderá escapar.

Quando Pequerrucha acordou, levou um susto enorme ao ver que estava no meio do lago, em cima de uma folha tão grande. O filho do sapo foi logo dizendo:

– Bom dia, menina. Amanhã você casará comigo.

– O quê? Casar com um sapo? Nunca! – exclamou Pequerrucha aterrorizada. Depois, olhando ao redor, perguntou: – Onde estou? Onde está minha mãezinha?

– Não adianta gritar nem chorar! – disse o filho do sapo. – Está tudo decidido: você vai casar comigo.

Pequerrucha começou a chorar e os peixes do lago ficaram com pena dela. Resolveram salvá-la. Mas como? O único jeito era empurrar aquela folha para longe dos sapos. Assim, Pequerrucha afastou-se deles, mas também da casa de Vicentina.

A folha foi boiando sobre a água. Depois de muito tempo chegou à margem. Pequerrucha desceu e começou uma nova vida. Ela caminhava entre as plantas e flores. Era primavera, havia passarinhos cantando por perto. A menina sentia-se feliz.

 

Pólen de flores é meu alimento.

Bebo gotas de orvalho e conduzida

como uma ave nas asas do vento

canto com a primavera florida.

 

Veio o verão, depois chegou o outono. As primeiras chuvas começaram a cair. Pequerrucha não tinha uma casa onde se abrigar. Procurava esconder-se embaixo das folhas maiores, mas acabava sempre ficando molhada. Choveu muito até que veio o inverno. Bastava um floco de neve para cobri-la inteirinha!

– Oh, como é duro ser tão pequenina e não ter onde morar! – pensava Pequerrucha, tremendo de frio.

Por isso resolveu deixar a floresta. Caminhou durante muito tempo…
Chegou a um campo onde havia umas hastes de capim e lá no meio uma estranha casinha. Pequerrucha bateu à porta.

– Entre! – disse o velho rato, dono da casa. – Oh, como você está gelada! Pode ficar morando comigo durante todo o inverno. Quero que me conte belas histórias!

– Não sei contar histórias, mas sei cantar – respondeu Pequerrucha. E começou:

 

Senhor rato hospitaleiro,

desta casa cuidarei

sem descanso o dia inteiro.

E cantigas cantarei.

 

Pequerrucha cantou várias canções para o velho rato. Sentado em sua cadeira, ele ouvia encantado. Pequerrucha ficou morando ali. O tempo passava depressa. Durante o dia tinha muito o que fazer: arrumava a casa, preparava o almoço, cuidava de tudo. De noite, alegrava o velho com suas canções. Ele estava tão contente com Pequerrucha, que não se cansava de elogiá-la:

– Você tem uma bela voz. Ficaria a vida inteira ouvindo você cantar! Gosto tanto de música…

Uma noite, quando Pequerrucha parou de cantar, o rato falou:

– Tenho um vizinho que está procurando esposa. Ele é muito rico e de boa família. Seria um bom marido para você. Não quero forçá-la, mas é preciso pensar no futuro. Hoje ele virá me visitar.

Daí a pouco chegou o vizinho. Era uma toupeira elegante e distinta. Tinha o pelo negro e brilhante, mas detestava o sol, era tímida e não enxergava bem. Apesar disso, assim que viu Pequerrucha, achou-a linda e ficou apaixonada.

– Sou muito trabalhador – foi dizendo Toupeira – e tenho uma boa posição. Venha, vou mostrar-lhe minha casa, que é bem grande, cheia de galerias! Só é um pouco escura…

Toupeira prendeu na boca uma espécie de lanterna e entrou num buraco debaixo da terra. Foi mostrando a Pequerrucha os túneis que cavara, dizendo:

– Tudo isto é serviço meu, está vendo? Gosto de trabalhar…

– Não faço como esta andorinha – continuou Toupeira – que passou o verão voando e agora está aí, caída no chão, sem poder voar mais! Estragou o teto da minha galeria e não consegue sair daqui! Vai acabar morrendo de frio. Eu, ao contrário, sou previdente, estou sempre pensando no futuro…

Pequerrucha aproximou-se da andorinha e viu que ela ainda estava viva.

– Oh, pobrezinha! – exclamou. – Preciso fazer alguma coisa por você. Não posso deixá-la morrer de frio!

Pequerrucha acariciou a andorinha, pensando no que poderia fazer para salvá-la. Teve uma ideia e saiu depressa.
Logo Pequerrucha voltou, trazendo um grande punhado de algodão, o maior que pôde carregar. Cobriu com ele o corpo da andorinha, dizendo:

– Assim, você não sentirá frio. Mais tarde voltarei para trazer comida.

– Muito obrigada! – disse a andorinha – Você está salvando a minha vida! Assim que eu recuperar as forças, vou levantar vôo, em busca de lugares mais quentes, onde haja sol… Quando parti com minhas companheiras, para nossa longa viagem de outono, não sei o que aconteceu: caí ao solo e não pude mais voar! – Não consigo respirar, neste lugar sombrio – continuou a andorinha. – Falta-me o ar!

– Também não gosto daqui – disse Pequerrucha. – Mas Toupeira detesta a luz do sol…

– Assim que puder, sairei daqui – concluiu a andorinha, dormindo em seguida.
O inverno foi longo, mas quando chegou a primavera a andorinha estava pronta para partir.

– Venha comigo. Pequerrucha! Suba nas minhas costas, eu a levarei! – convidou a andorinha.

– Não fica bem – respondeu Pequerrucha. – O rato foi muito gentil comigo, abrigou-me durante todo o inverno. Agora, que é primavera, não posso abandoná-lo! Ele quer que eu me case com Toupeira…

– Tem razão, menina… Mas você não é como Toupeira. Não poderá viver sem tomar sol. Pense nisso!

E a andorinha levantou vôo e partiu.

 

Com os fios pelas aranhas bordados

Pequerrucha belo enxoval prepara:

roupas de fina seda e brocados

que mesmo uma princesa invejara.

 

Amanhã é o dia do casamento

e o “sim” então deverá ser dito.

Grande é de Toupeira o contentamento.

Mas o coração dela está aflito.

 

Pequerrucha pôs-se a tecer seu vestido de noiva com os fios finíssimos que as aranhas faziam para ela. Passou o verão, veio o outono. Chegou o dia marcado para o casamento.
Toupeira, todo elegante, de botas e cartola, veio buscar a noiva.

– Bom dia, querida Pequerrucha. Hoje vamos nos casar… Este é um grande dia para mim! Se eu soubesse falar bem, faria um belo discurso!

– Oh, não é preciso! – respondeu Pequerrucha.

– Você está pronta? – perguntou Toupeira.

Pequerrucha ia responder, mas viu o sol, dourado e quente… Ficou parada, a admirá-lo.

– Você gosta do sol, não? – perguntou Toupeira. – Mas luz dele é forte demais, não a suporto! Prefiro viver no escuro, lá no fundo de minhas galerias… Vamos! Venha depressa…

Pequerrucha sentiu um aperto no coração. Não podia estar feliz, sabendo que ia morar a vida inteira debaixo da terra… Saiu correndo pelo campo, para sentir o calor do sol pela última vez.

Mas, de repente, ouviu um bater de asas ali perto! Oh! Era a andorinha que ela salvara da morte no inverno! A andorinha pousou perto de Pequerrucha e vendo que a menina estava chorando, perguntou o que era. Depois disse:

– Depressa, Pequerrucha, suba nas minhas costas. Ainda é tempo! Segure-se bem, eu a levarei para longe daqui!

Pequerrucha olhou ao redor. Disse adeus aos dois amigos, acenando com a mão. Depois, saltou para as costas da andorinha… e fez uma viagem maravilhosa para um país distante.
Era um lugar maravilhoso, onde cresciam muitas flores. Em cada uma delas morava um ser pequenino com asas. A andorinha colocou Pequerrucha na flor mais bela do jardim. Encantada com toda essa beleza que a rodeava, Pequerrucha começou a cantar:

 

Mal acredito no que vejo

e é tão grande a novidade

que outra vida não desejo

senão esta felicidade!

 

Pouco depois, todos os habitantes dali rodearam Pequerrucha. O mais belo deles, o rei das flores, ofereceu-lhe uma coroa de ouro.

– Seja bem-vinda! – disse ele. – Você será minha esposa. E como presente de casamento vou lhe dar duas asas transparentes, iguais às nossas. Eu tinha ouvido falar de você por uma fada, mas não sabia que cantava tão bem! Como é seu nome?

– Eu me chamo Pequerrucha, majestade.

– Vou lhe dar um novo nome. De hoje em diante você se chamará Maia e será a rainha das flores!

 

Pequerrucha, entre resplendores,

como rainha foi coroada

para reinar sobre as flores.

Se numa noite enluarada

ouvires canção que não sei,

é ela que canta para o rei…

 

 

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