Imagem: Pixabay

 

Depois das 21 narrativas do projeto “Histórias de coração para coração”, ainda chegaram mais dois presentes, de amigos queridos. (Veja AQUI a proposta).

Hoje compartilho a segunda história enviada pela Josi, que também nos presenteou com “O povo que buscava o sol”. Confira essa bela narrativa AQUI.

 

“O Pai do Mato, é uma lenda da tradição oral baiana, que ouvi minha avó paterna contar muitas vezes na minha infância, em Juazeiro – BA, na hora de dormir. Como é comum, nesse tipo de narrativa, alguns elementos variam de acordo com a cultura e o imaginário do lugar em que a mesma se faz. Na versão contada por minha avó, havia uma moça chamada Maria, que morava com sua cachorrinha. A intervenção do animalzinho ao chamado do “bicho”, não eram latidos, mas sim um refrão, que avisava que Maria tinha lavado os pés e as mãos e tinha se deitado.

Cresci supondo que essa história era contada pra reforçar a importância de se lavar antes de dormir, porque isso era um ensinamento dos mais velhos. Essa história povoava o meu imaginário com muitas imagens do lugar onde Maria morava, da sua solidão, do mistério da noite, dos perigos, da cachorrinha protetora, enfim.

Hoje, eu retomo a memória afetiva de me sentir protegida pela presença e pelo cheiro de minha avó”.

 

O Pai do Mato

 

Zabezinha morava sozinha num lugar retirado. Sua única companheira era a cachorrinha Bocada, que apareceu por lá, vinda ninguém sabe de onde. Naquele ermo, havia muito tempo que não aparecia uma alma. Por isso, foi grande a alegria da velhinha quando ouviu alguém entoar uma estranha cantiga.

Ela, de pronto, convidou o dono da voz:

– Vem cá se refrescar do sol.

Mas a voz respondeu:

-À noite! À noite! À noite!

Quando anoiteceu, o ente – que era o Pai do Mato – apareceu, mas, quando se aproximou da casa, Bocada começou a latir.

O Pai do Mato gritou:

– Abre a porta Zabezinha, que Bocada quer me pegar! – e, desesperado, foi embora.

A velha, cega de raiva, falou:

– Você não vê que estou apaixonada? – e passou o porrete na cachorrinha e a matou.

O Pai do Mato voltou à tarde e ouviu o convite de Zabezinha. Respondeu da mesma forma e, assim que anoiteceu, se aproximou da porta. A cachorrinha, que era encantada, mesmo morta começou a latir, e ele, morto de medo, fez-se nas pernas.

Furiosa, a velha queimou a cachorrinha, mas à noite, quando o Pai do Mato veio, as cinzas ainda latiram, o que o espantou mais uma vez. A velha, revoltada, jogou as cinzas no rio, e enquanto a correnteza seguia, ela ouviu o latido de Bocada, que foi sumindo, sumindo, até sumir de vez.

À tarde, o Pai do Mato cantou novamente, e a velha convidou-o:

– Vem se refrescar do sol.

Ao que ele respondeu:

– À noite! À noite! À noite!

De noite ele veio e, sem ouvir o latido da cachorrinha, bateu à porta. Quando a velhinha abriu, em sua frente, apresentou-se um bicho horrível, como mais não podia ser, que saltou em direção dela e a devorou.

 

Lenda contada por Iraci Fonseca Fernandes

Igaporã – Bahia

Fonte: Contos e Lendas da Terra do Sol, Marco Haurélio e Wilson Marques, Paulus.

 

Josilene Costa – professora, atriz e apaixonada por contos.

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