Imagem: Gabriela de Carvalho

 

Quando a Alice me contou qual a narrativa que tinha escolhido, não acreditei. É uma história que traduzi faz um tempo e acabei de revisar essa tradução, para mandar aos alunos de um dos meus cursos.

E ela não tinha uma versão em mãos para me passar. Decidimos juntas que eu compartilharia a minha tradução, que foi feita pensando nas imagens originais do conto, para que tivéssemos acesso ao conto mais puro, sem alterações de estilo e de preferências do tradutor. Portanto, é uma versão para quem estuda narrativas tradicionais.

Alice nos conta como esse conto de Grimm chegou em sua vida e marcou o seu destino:

 

“Um conto que me fez nascer como professora Waldorf, A senhora Holle, me tocou e me toca profundamente o coração, fala com imagens fascinantes de plantio e colheita, do terreno e cósmico, do presente que contém em si o passado e o futuro, fala sobre escolhas, caminhos de transformação, da vida que flui e que renasce, simboliza de maneira incrível a reencarnação.

Conto sutil e profundo como nossa alma.

Tive a honra de viver esse conto na formatura do meu seminário de pedagogia Waldorf, onde meus queridos e inspirados professores o encenaram.

Bebemos água da fonte, recebemos pão, encontramos a macieira, sacudimos a poeira necessária das lembranças, e fomos abençoados com uma chuva de ouro. Depois disso nunca mais fui a mesma.

Espero que esse conto possa tocar e encher de sabedoria o coração de todos. Que junto com páscoa possamos nos despir te tudo o que não nos pertence mais para que sejamos abençoados com o novo sol”.

 

 

Senhora Holle (ou Dona Ôla)

(Conto de Grimm)

 

Tradução do francês e inglês – Ana Flávia Basso

Títulos em outras línguas: Dame Holle (francês), Frau Holle (alemão), Mother Holle (inglês)

 

Uma viúva tinha duas filhas: uma era bela e trabalhadeira; a outra, feia e preguiçosa. Mas ela tinha uma clara preferência pela que era feia e preguiçosa, pois esta era sua verdadeira filha, e a outra devia fazer todo o trabalho e ser a criada da casa.

A pobrezinha era obrigada a ir todos os dias até uma larga estrada, sentar-se na beira de um poço e fiar até que o sangue corresse pelos seus dedos.
Certo dia, a bobina ficou toda ensanguentada e a jovem se debruçou sobre o poço para lavá-la, mas a peça escapou de suas mãos e caiu no fundo do poço.

A moça se pôs a chorar, correu até a madrasta e contou-lhe sua desgraça. Esta, porém, lhe repreendeu tanto e foi tão impiedosa, que lhe disse:
– “Como você deixou a bobina cair no poço, agora terá que procurá-la”.

A jovem voltou ao poço, sem saber o que fazer. Sua angústia era tão grande, que ela acabou caindo no poço em busca da bobina.

Ela perdeu os sentidos e, quando acordou e voltou a si, viu-se num lindo campo inundado de sol, onde cresciam milhares de flores.

A jovem foi andando por esse campo e chegou diante de um forno, cheio de pães. E o pão gritava: – “Ai, tire-me do forno, tire-me do forno, senão eu vou queimar: já estou assado há muito tempo”. Então, ela se aproximou e, com a ajuda de uma pá de padeiro, tirou do forno todos os pães, um após o outro.
Continuou pelo caminho e chegou diante de uma macieira que estava coberta de maçãs e que gritava assim: – “Ai, sacuda-me , sacuda-me! Nós, maçãs, já estamos maduras!” Então, sacudiu a árvore, tanto e tão bem que pareceu que choviam maçãs – e continuou assim até que não restou nenhuma na árvore. E, depois de arrumar todas as maçãs num monte, continuou o seu caminho.
Finalmente, ela chegou diante de uma casa pequenina, em cuja janela estava uma velha senhora, que tinha dentes tão grandes que a jovem ficou com medo e quis sair correndo. Mas a velha gritou-lhe: – “Por que está com medo, minha querida? Fique comigo. Se você fizer bem todas as tarefas domésticas, você terá uma vida boa. Você só precisa prestar muita atenção ao arrumar minha cama, sacudindo o acolchoado com vontade, para que as penas voem, pois assim, cai neve no mundo; eu sou a Senhora Holle”.

Como a velha lhe falava com tanta bondade, a moça criou coragem, aceitou a proposta e começou a fazer o serviço. Ela cuidava de tudo a contento da velha e todos os dias sacudia o acolchoado vigorosamente, até que as penas voassem como flocos de neve. Em contrapartida, a vida era boa na casa da Senhora Holle: jamais uma palavra desagradável e uma refeição quente todos os dias.

Depois de viver com a Senhora Holle por algum tempo, a jovem começou a sentir-se triste, sem saber no início de que sentia falta.

Mas acabou por compreender que sentia saudades. Embora fosse infinitamente mais feliz ali do que na sua casa, ela sentia saudades do lar.

Enfim, disse à Senhora Holle: “Eu sinto saudades de casa e, mesmo sendo feliz aqui embaixo, não posso ficar por mais tempo: é preciso que eu retorne para cima, junto aos meus”.

A Senhora Holle lhe respondeu:
– “Agrada-me saber que você quer voltar para casa e, como me serviu tão fielmente, eu mesma a conduzirei para cima”. Ela tomou a moça pela mão e levou-a até um grande portal. O portal se abriu e, quando a jovem estava bem debaixo dele, uma forte chuva de ouro caiu sobre ela. O ouro ficou grudado e ela ficou toda coberta de ouro.
– “Isto é para você, porque você foi tão zelosa”, disse a velha e devolveu-lhe também a bobina que caíra no poço. Então o portal se fechou e a moça encontrava-se no alto, sobre a terra, não tão longe de onde morava sua mãe. Quando entrou no quintal da casa, o galo que estava pousado no poço gritou:

“Cocoricó, cocoriqui,
A donzela de ouro está aqui!”

A moça contou tudo o que lhe acontecera e, quando a mãe soube como ela chegara a tanta riqueza, desejou a mesma sorte para a sua outra filha, a que era feia e preguiçosa. Esta deveria sentar-se na beira do poço e fiar e, para que a bobina ficasse coberta de sangue, ela picou os dedos e arranhou a mão em um arbusto de espinhos. Depois, ela jogou a bobina dentro do poço e pulou em seguida.

Assim como a outra jovem, ela chegou em um lindo campo e pegou o mesmo caminho. Quando ela estava diante do forno, o pão gritou de novo: – “Ai, tire-me do forno, tire-me do forno, senão eu vou queimar: já estou assado há muito tempo”. Mas a preguiçosa respondeu:
– “Não quero me sujar”, e foi embora.

Logo chegou diante da macieira, que gritou: – “Ai, sacuda-me , sacuda-me! Nós, maçãs, já estamos maduras!”

Mas ela respondeu:
– “Não faço isso, pois pode cair uma maçã na minha cabeça!”, e continuou no caminho.
Quando chegou à casa de Senhora Holle, não ficou com medo porque já ouvira falar dos seus dentes grandes, e logo se engajou no serviço doméstico. No primeiro dia foi diligente, trabalhou com atenção  e escutou tudo o que a Senhora Holle lhe dizia, pois pensava em todo o ouro que ela lhe ofereceria.

Porém, no segundo dia, ela começou a ficar preguiçosa e, no terceiro dia, ela nem queria se levantar da cama. Ela não arrumou a cama da Senhora Holle como deveria, deixando as penas voarem. Aí a Senhora Holle cansou-se dela e a despediu. A preguiçosa ficou contente e pensou que agora viria a chuva de ouro.

Senhora Holle levou-a até o portal, mas quando a moça passou por debaixo dele, ao invés de ouro, um grande pote de piche caiu em cima dela.
– “Esta é a recompensa pelos teus serviços”, disse Senhora Holle ao fechar o portal.
A preguiçosa voltou para casa, mas estava toda coberta de piche e o galo pousado sobre o poço gritou:

“Cocoricó, cocoriqui,
A donzela suja está aqui!”

Quanto ao piche, ele ficou bem grudado nela e a preguiçosa não pôde mais sair até o fim de seus dias.

 

Alice Cores

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