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Hoje é dia da Antonia nos presentear com uma narrativa. E ela escreveu assim;

“Por que escolhi este conto? Escolhi este conto porque ele traz, em imagens simples, realidades muito profundas. Um conto para você realmente imaginar…”

 

Bom, está dado o desafio: vamos imaginá-lo!

Boa leitura!

 

 

A Caixinha Dourada

Herbert Hahn (tradução Karin Stasch)

 

Numa grande casa dourada vivia um Pai com muitos filhos. Um dia ele disse a um deles: “Chegou a hora de fazeres a tua caminhada.” Levou o filho a uma escada que descia com inúmeros degraus. Por alguns degraus acompanhou-o, mas depois disse: “Agora terei que deixar-te. Só posso dar-te uma coisa, que terás que cuidar muito bem.” E ele deu a seu filho uma caixinha dourada, que este logo guardou nas dobras de sua veste. “Carrega-a sempre contigo”, disse o Pai, “ela te guiará e te protegerá. Mas nunca a abras, até que voltes a mim.”

Com essas palavras o Pai se despediu. O filho desceu por aqueles infinitos degraus. Chegando lá embaixo, quis olhar mais uma vez lá para cima. Mas como ficou admirado quando viu que a escada havia desaparecido! Lá, onde havia caminhado a passo livre há pouco tempo, só havia uma alta parede negra, em que não havia nenhuma saliência. Mas na sua frente estendia-se uma larga área que se movia para cima e para baixo: era o mar.

Vendo que não podia ir para trás nem para frente, e começando a sentir se bastante miserável, viu como algo na água se aproximava dele pela. Era um barquinho, sem remo, sem leme e sem mastro. Bem de leve tocou na praia estreita e pareceu-lhe que o convidava a entrar. Não existe outro caminho mesmo, pensou o filho. Corajosamente pulou para dentro do barquinho, que logo começou a levá-lo para longe dali. Rapidamente foram mar afora e a parede negra e alta logo perdeu-se de vista. No começo a viagem foi bem tranquila, mas depois uma brisa começou a soprar alegremente. As ondas ficaram com as cristas brancas e o barquinho balançava para cima e para baixo. O vento foi ficando cada vez mais forte, transformando-se numa tempestade. Sim, chegou a tornar-se um enorme remoinho, e o barquinho era jogado de um lado para o outro como se fosse uma casca de noz. O filho ia perdendo todos os sentidos e só conseguia segurar-se firmemente na borda do barquinho. De repente, porém, houve um forte barulho: o barquinho havia batido num recife. Tinha agora um rombo pelo qual ia entrando água e começava a afundar.

O filho percebeu que iria afundar junto, se ficasse no barco. Mas onde havia uma salvação? Se existisse alguma, só poderia ser no próprio mar aberto. Ousadamente jogou-se nas ondas, segurando firmemente a caixinha dourada com a mão esquerda contra seu peito, pois não queria perdê-la. Na hora em que a maré o recebeu, aconteceu algo maravilhoso. A tempestade parou, as ondas que pareciam um caldeirão de bruxa, começaram a fluir numa direção só, e a caixinha dourada fazia com que o filho se sentisse carregado por algo como se fossem fortes braços.

É difícil dizer por quanto tempo nadou. Finalmente foi levado até uma praia de uma grande ilha. Mal havia dado um passo em terra firme, quando foi cercado por um monte de pessoas, que exclamavam entusiasmadas:

“Um rei, um novo rei!” Antes que pudesse dar-se conta, já lhe haviam posto uma coroa na cabeça e um lindo manto nos ombros. Elevaram-no e foram carregando-o para longe dali, cantando com júbilo cada vez mais alto. Aos poucos havia se juntado muito povo, formando um longo cortejo. Tocadores de flautas, trombetas e tambores haviam aparecido como se tivessem caído do céu e iam na frente, abrindo o cortejo.

Quando o cortejo alcançou o palácio, foi posta uma mesa de festa, e em pouco tempo haviam trazido tudo o que havia de mais precioso de louças e talheres, e o melhor da cozinha e das despensas. Tudo se movia ao mesmo tempo, todos riam, falavam, faziam brindes e ninguém parecia perceber que o recém-chegado, a quem tudo isso era dedicado, olhava para tudo com olhos arregalados, quase aterrorizados. Logo não se entendia mais palavra nenhuma, pois dentro do salão o barulho dos músicos foi ficando insuportável

O filho nem havia conseguido respirar direito desde sua longa e cansativa viagem. Ele realmente não sabia o que lhe estava acontecendo, e o que devia pensar de tudo aquilo.

Olhando em volta de si, viu que entre todas aquelas pessoas alegres e animadas, havia um homem sentado, calado e muito sério. Devia ser bastante velho já, pois seu cabelo e barba eram brancos. Ele parecia estar sorrindo para o rei, de forma bondosa, mas quase triste. O filho levantou-se silenciosamente, então, e sem que ninguém o percebesse, acercou-se do velho e indicou-lhe que gostaria de falar com ele.

Foram a uma sala separada: “Será que tu podes dizer-me o que tudo isso significa?” perguntou o filho insistente.

“Eu posso, meu rei”, respondeu o velho muito sério. – “Mas eu sou realmente um rei?” perguntou o filho sobressaltado. -‘Tu o és. Mas somente por pouco tempo.” – E o velho contou então que todo ano um desconhecido era jogado na ilha, e que ele podia então fazer o que bem entendesse, o que desejasse. Pois era o rei, poderia usar e desfrutar de tudo, como era o direito de um rei, e o menor de seus desejos seria realizado.

“Mas depois de passado um ano”, continuou o velho, “a maravilha tem um fim, no mesmo dia em que ele havia chegado há doze meses. Então virão aquelas mesmas pessoas que haviam jubilado para seu novo rei, jogam-no do trono, lhe arrancam a coroa e lhe roubam o manto. Pobre como havia chegado, terá que ir à praia da ilha. E então chegará um barco sem tripulantes, em que não é possível sentar nem ficar de pé, somente deitado. O barco o levará então a uma ilha solitária. Lá tudo é deserto e cinza, mudo e vazio. Não há árvores, nem arbustos, nem graminha alguma cresce lá. Nenhuma minhoquinha se mexe na areia, nenhum mosquitinho no ar, e nunca um pássaro cantou uma canção por lá.”

“Sim, esse é o fim”, disse o ancião e baixou a vista. -“Mas isso é horrível”, disse o jovem rei. “De que me servem todos esses enfeites, essas festas, essa música estridente! Diga, não há outra alternativa para essa viagem à ilha solitária?” –

– “Eu te disse o que me foi permitido dizer-te”, continuou o velho. “O que mais houver, tu mesmo terás que descobrir. Mas é um bom sinal que me tenhas perguntado logo no primeiro dia. Até hoje nenhum rei tinha feito isso.” E enquanto dizia isso, seu olhar brilhou.

O jovem rei agradeceu de coração ao seu conselheiro. Depois pensou: já que sou o rei, terão que senti-lo também. E no mesmo momento ordenou que a festa havia terminado e que mandassem para casa os cozinheiros e despenseiros, guardas e músicos.

Depois recolheu-se sozinho ao seu dormitório. Repensou todas as coisas estranhas que havia vivenciado; e naquilo que ainda esperava por ele, mas decidiu encarar tudo corajosamente. Antes de adormecer pôs a caixinha dourada, que lhe havia guiado tão fielmente, debaixo de seu travesseiro.

Nessa noite teve um sonho estranho. Ouviu uma voz que lhe parecia familiar. E a voz lhe dizia: Vá visitar os pobres, os doentes, aqueles que estão sós!

Quando acordou, pouco antes do amanhecer, ouvia claramente aquelas palavras ressoando nele, e guardou-as fundo no seu coração. E assim foi que de manhã rejeitasse todas as pessoas que queriam cercá-lo de serviços solícitos. E da carruagem dourada com cavalos brancos, que queriam levá-lo a dar um passeio, ele também não quis saber nada. Escolheu um transporte simples, levou somente um médico e um único servo como ajudante. E depois seguiu o conselho que havia ouvido no sonho. Visitou as cabanas dos pobres, sentou-se ao lado de muitos enfermos, e desceu à porões escuros onde mal sobreviviam os prisioneiros. Muitos desses já haviam sido esquecidos por todas as pessoas. E como era grande o sofrimento a sua volta: teve que trabalhar dias, semanas, sim, meses. As palavras no seu coração continuavam ressoando e não permitiam que parasse para descansar.

As pessoas no palácio estavam chateadas. Diziam: “Nem parece que temos um rei!”. Mas o moradores nos arredores da ilha diziam algo totalmente diferente. Seus rostos se iluminavam como se o sol tivesse brilhado sobre eles pela primeira vez na vida.

Assim passou meio ano e um pouco mais. Quando o rei encontrava o velho conselheiro, esse sorria para ele, encorajando-o. Isso dava coragem ao rei e ele acreditava estar no caminho certo. Mas nos últimos encontros o ancião tinha mostrado um rosto preocupado. O rei então decidiu perguntar-lhe:

-“Estou fazendo certo ou não?”

– “Eu creio sim, estás fazendo bem”, retorquiu o velho. “Mas talvez não tenha acontecido tudo ainda, que deveria acontecer”.  E aqui interrompeu-se, e o rei percebeu que o ancião não podia ou não queria dizer mais.

Mas o que mais deveria acontecer? Será que ele tinha deixado de ver alguma necessidade? O rei pensou e pensou até tarde de noite. De repente lembrou-se de que fazia tempo que não havia posto a caixinha dourada debaixo de seu travesseiro. Fê-lo novamente. E todas as preocupações pareceram ficar mais leves, e ele adormeceu. Nessa noite a voz conhecida lhe falou novamente e disse: “Mande construir barcos, mande construir barcos! Equipe-os com tudo que possa brotar, florescer e carregar frutos. Deixe então que saiam ao mar, para onde o vento os levar. E que nenhum homem esteja nesses barcos!”

Quando o rei despertou, o sol estava nascendo. Cuidadosamente juntou todas as palavras que havia ouvido, para dentro de seu coração. E no mesmo dia chamou os marceneiros e mestres que sabiam construir navios. Começou então um martelar e serrar que fazia os tímpanos das pessoas doerem. E como ficaram admiradas ao ver que um navio após o outro entrava no mar: sem tripulação alguma, mas carregados com sementes, pequenas árvores frutíferas e outras coisas que podem brotar, florescer e carregar frutos!

Sempre que um navio partia, o rei estava na margem, seguindo o navio com os olhos, enquanto podia vê-lo. Além disso não deixava de cuidar dos pobres, doentes e solitários. E depois de um certo tempo, quase não havia mais homens na prisão daquela ilha.

Mas estava chegando o dia em que teria passado um ano na ilha. O rei lembrou-se de tudo que o velho lhe havia dito, e preparou-se para o que fosse acontecer. Carregava a sua caixinha dourada junto ao seu coração e ajoelhou-se para sua oração matinal. Podia ouvir vozes de pessoas chegando, cada vez mais, e os ruídos aumentavam, até parecerem uma tempestade. De repente tudo ficou silencioso. “Agora virão” – pensou o rei – “para arrancar-me tudo o que pertence ao rei. Pois aconteça o que tiver que acontecer!”

Mas quando a porta se abriu, somente um único homem entrou. Era um daqueles que estivera morrendo, esquecido na prisão. Ele disse: “Chegou a hora, e a suprema lei dessa ilha tem todo o poder. Temos que despedir-nos de ti. Mas, não faremos contigo o que fizemos com os reis anteriores, que foram teus precursores. Não há mão que conseguiria arrancar-te a coroa e o manto real. Que sejas livre e tirai-os tu mesmo. E depois te acompanharei no teu caminho.”

Sem hesitar, o rei fez o que a hora demandava. Nas vestes simples que vestia quando chegara à ilha, saiu do palácio. À direita e à esquerda da rua, que teria que seguir, havia-se formado uma barreira grossa de pessoas. Todos ficaram em silêncio profundo e testemunharam assim da maneira mais pura seu agradecimento e seu amor.

Quando o filho chegou à praia, viu que o mar estava liso como um espelho. Não havia um movimento no ar, e mesmo assim um barco chegava cada vez mais perto, como que empurrado por uma força misteriosa. Quando aterrissou, o filho pensou mais uma vez na grande lei da ilha, da qual tinha ouvido falar, logo depois de ter sido coroado rei. Obedientemente deitou-se no barco. No mesmo instante um sono maravilhoso, forte, o tomou e ele adormeceu.

Ele não percebeu a duração da viagem. Despertou quando o barco bateu contra algo. Era a praia, e ele agora sabia que havia chegado à ilha solitária e deserta. Mas como ficou surpreso quando olhou a sua volta: não havia nada que fosse deserto! Por toda parte via-se grama verde, árvores com flores, prenunciando frutas, e nos campos ondulavam ao vento os cereais novos. Até ouvia cantos de pássaros, pois toda aquela vida brotando havia chamado os cantores empenados em grande número. O filho esfregou seus olhos. Isso não podia ser a ilha cinzenta da qual o velho lhe havia falado. Com certeza estava ainda sonhando!

Ele não pensou logo nos navios que havia enviado ao mar um tempo atrás. Pois esses haviam ancorado naquela ilha e mãos invisíveis haviam espalhado aqueles bens vivos, de forma que toda a ilha se transformara.

Então um pressentimento começou a surgir dentro dele, ao virar-se para o mar. Isso lhe deu uma pontada no coração, porque via agora novamente aquela parede alta, negra e íngreme, que já conhecia. De repente ela foi empurrada para o lado como que por uma mão gigantesca, e a escada com os inúmeros degraus fez-se visível a sua frente. Lá de cima ouviu a voz do Pai que o chamava. Preenchido com uma alegria inconcebível começou a subir.

O Pai estendeu-lhe os braços. Mas depois perguntou: “Trouxeste a caixinha dourada contigo?”- “Sim, Pai, eu a tenho”, respondeu o filho. – “Tu a abriste?” . “Não”, respondeu o filho, “eu a deixei fechada, como me havias dito.” . “Que bom para ti, que obedeceste à minha ordem. Mas abra-a agora.”

O filho obedeceu ao que seu Pai lhe disse. Viu então que no fundo da caixinha estava a imagem da casa paterna inteira, com todos os seus salões dourados e todos os seus irmãos, que ali entravam e saíam ou sentavam-se à grande mesa. Tudo isso ele o havia carregado consigo sem sabê-lo. E agora ele sabia também que tinha sido a voz do Pai a que tinha ouvido duas vezes durante o sonho.

Ainda estava numa feliz admiração, quando o Pai lhe disse: “Vede agora a tampa da caixinha por dentro!” E então apareceu um novo milagre ante os olhos do filho. Na tampa esboçava-se, com todas as cores e formas, a ilha inteira em que havia sido rei. Sim, todas as pessoas que havia conhecido estavam lá. E não era somente uma pintura: elas estavam vivas e se mexiam quando ele olhava para elas. O homem velho, que o havia aconselhado, sorriu-lhe e seu olhos falavam com palavras que ele ouvia no seu coração.

O Pai também sorriu bondosamente: “Viste”, disse ao filho, “todos eles, tu os carregas na caixinha dourada, assim como carregaste contigo a casa paterna. Quanto mais pensares neles com gratidão e amor, tanto mais perto estarão de ti. Fizeste bem a tua caminhada. Mas agora entre na casa paterna: é bom que descanses um pouco, antes que eu te ponha a caminho novamente”.

 

Tradução de Karin Stasch do livro Das Goldene Kästchen, de Herbert Hahn. Sttutgart, Editora J. C. Mellinger.

 

Antonia Alves de Oliveira – pesquisadora social, tradutora, trabalha atualmente como voluntária para um projeto de montagem de uma usina de produção de óleo de licuri junto a comunidades tradicionais e quilombolas, na região rural do município de palmeiras, Chapada Diamantina.

4 thoughts on “Histórias de coração para coração 8 – A Caixinha Dourada

  1. Q historia incrivel, amei!
    Gratidao eh realmente uma preciosidade em nossas vidas!

    1. Olá, Patrícia! Bom vê-la por aqui, sorvendo as histórias! Espero que consiga espalhá-las por aí. Beijos

  2. Estou encantada com essa historia. Fui lendo prá mim, em voz alta e imaginando as cenas, os fatos, as pessoas……. Mas ele é disciplinado, humilde na obediência, corajoso e com amor vê o seu próximo lhe dando oportunidades com dignidade. Linda escolha da Antonia.

    1. Essa história encanta mesmo,Livônia!
      E cai muito bem para crianças a partir de 9 anos. Bjos

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