A 3a história da Semana Especial Fadas vem do Tibete e se chama “O Quadro de Pano”.

A versão que compartilho com vocês é da Jette Bonaventure, diretora da tradução para o português da Obra Completa de C. G. Jung e uma profunda conhecedora dos contos de fadas.

O conto é longo e complexo, ideal para crianças acima de 9 anos e adultos. Mas é também de uma beleza sem fim, com descrições de paisagens que nos elevam e nos fazem mergulhar em uma outra atmosfera.

Espero que goste dessa narrativa e deixe que ela entre em seu coração.

 

 

O QUADRO DE PANO
(Conto tibetano)

 

Havia uma vez, em uma região árida ao pé das montanhas, uma pobre viúva que tinha três filhos. O maior não prestava para grande coisa e, tampouco, o segundo. O caçula é que era filho carinhoso e trabalhador, que sempre procurava ajudar a mãe no que podia. A mãe ficava tecendo o dia todo, fazendo brotar de seus dedos flores maravilhosas, pássaros e bichos de todo tipo; levava os seus tecidos prontos para a feira de uma cidade vizinha, recebendo em troca dinheiro suficiente para comprar comida para ela e para os filhos.

O caçula costumava ir catar lenha em uma floresta próxima, enquanto os outros dois irmãos se espreguiçavam ao sol, esperando que a mãe providenciasse comida.

Um dia, a mãe acabou de vender seus brocados um pouco mais cedo que de costume e foi, então, dar uma volta pela feira, procurando um vendedor que oferecesse arroz mais barato. De repente, seus olhos pousaram numa linda tela pendurada numa loja. Aproximou-se para ver melhor. Era um quadro reproduzindo uma montanha parecida com a que havia atrás de sua aldeia, só que perto dela, em vez de cabanas pobres, havia um grupo de lindas casas limpinhas. Entre elas, a mais bonita era uma casa de andares, situada no meio de um jardim, atravessado por um riacho prateado, que formava um pequeno lago no qual se agitavam peixinhos vermelhos. Aves de galinheiro ciscavam aqui e acolá, e belas ovelhas brancas pastavam nas ladeiras da montanha; campos de milho dourado se estendiam a perder de vista. Culminando essa tela idílica, havia no topo da montanha um grande sol de fogo.

A mãe ficou pasma com a beleza do quadro e não se cansava de olhá-lo. Sem hesitar um minuto, tirou todo o dinheiro que tinha no bolso e que acabara de receber pelos próprios tecidos, e comprou o quadro. Só lhe sobraram algumas moedinhas para comprar um pouco de arroz para levar para casa.  “Só uma vez”, pensava, “não será tão terrível. Na próxima vez comprarei alguma coisa melhor para meus filhos”. No caminho, parava de vez em quando para desenrolar o quadro e admirá-lo. Como as casas brilhavam! Como o riacho cintilava! Contava quantas galinhas havia, quantos patos, e olhava para a pequena horta com seus belos legumes, tendo até a impressão de que podia sentir o perfume das flores que embelezavam o jardim. Nunca tinha se sentido tão feliz em toda a sua vida.

Em casa, a mãe pendurou o quadro perto da porta. Não conseguia tirar os olhos de lá. Os dois filhos maiores resmungaram e acharam ridículo gastar tanto dinheiro só para comprar um quadro, mas o caçula declarou:

– “Gostaria que você tivesse uma casa parecida com a desse quadro, mamãe, com um jardim igualzinho. Se eu fosse você, teceria um quadro de pano usando este aqui como modelo. Enquanto você estiver tecendo a casa, as flores, o riacho e as galinhas, você terá a impressão de já ser dona de tudo isso.”
– “Não fique pondo essas ideias na cabeça da mãe” – falou o filho mais velho bocejando. “Se ela começar a tecer por prazer, onde é que vamos encontrar dinheiro para viver?”
– “É claro” – opinou o segundo filho. “Se a mãe quer viver como uma grande dama, que espere pela outra vida. Talvez seja melhor do que esta!”
No entanto, a ideia do filho caçula a seduzia.
– “Não temam, meus filhos, que eu vá prejudicá-los” – ela falou, para acalmá-los. “Vou tecer à noite e de manhãzinha para meu prazer, e o resto do dia, para alimentá-los. Até agora alimentei vocês e vou continuar a fazê-lo.
Então ela comprou os fios mais lindos e se pôs a tecer.
A mãe passou um longo ano, sentada, tecendo. De noite, acendia uma tocha, cuja fumaça provocava lágrimas em seus olhos. Uma a uma, as gotas cristalinas caíam sobre o pano que estava tecendo e ela as ia incorporando ao quadro. Foi assim que teceu o lago e o riacho, com suas lágrimas.

No segundo ano, os pobres olhos da mãe estavam tão irritados, que até sangravam. E eram lágrimas vermelhas que caíam sobre o brocado que ela tecia. A mãe as ia incorporando ao quadro, tecendo flores vermelhas e o sol que iluminava o céu.

No terceiro ano, o quadro estava terminado. Continha tudo o que estava no modelo: uma região cheia de verduras ao pé de uma alta montanha, casinhas que pareciam de prata, campos de milho dourado, jardins com legumes, árvores frutíferas, arbustos floridos e, à beira da aldeia, no lugar da pobre cabana da mãe, havia uma grande construção, com colunas vermelhas, portas amarelas e telhado azul. Atrás da casa, nas ladeiras verdes da montanha, pastavam ovelhas, búfalos e vacas; pintinhos amarelos e patinhos brincavam na grama, e pássaros cruzavam o céu em vôo rápido. Em primeiro plano, havia um jardim cheio de árvores e flores brilhantes e, no centro, um laguinho com peixinhos vermelhos; um riacho prateado atravessava os campos de arroz. Atrás da aldeia havia campos de milho dourado e, bem acima, um sol de cobre que brilhava num céu azul.

A mãe enxugou os olhos avermelhados e exibiu um sorriso de satisfação:
– “Venham ver como está bonito, meus filhos!”

Os três filhos aproximaram-se e deram um grito de admiração.
– “Quanto dinheiro dariam por isso, se você o vendesse?” – perguntou o filho mais velho.
– “Por uma coisa assim, você poderá ganhar uma bela soma” – confirmou o segundo filho.

Mas o caçula declarou:
– “A nossa mãe construiu uma casa de seda para nós. Vamos contemplá-la e vivermos nela em pensamento”.
– “Teci este quadro para meu prazer e não quero vendê-lo” – disse a mãe. “Mas, aqui na penumbra não se enxerga muito bem tudo o que há nele. Vamos levá-lo para fora, para a luz do dia”.

A mãe pendurou o quadro fora da casa e todas as cores ficaram mais intensas. Lá, à luz do dia, é que se podia ver realmente o quanto era bonito o quadro. Os vizinhos vieram admirá-lo e cada um cumprimentava a mãe, que sorria de felicidade.

De repente, ela sentiu no rosto a carícia de uma brisa leve, o pano de seda balançou, um vento mais forte o sacudiu como um tapete do qual se tira o pó e, por fim, ele foi arrancado da porta onde estava pendurado. Num instante, o quadro saiu voando pelos ares.

A mãe deu um grito e desmaiou. Os vizinhos saíram em todas as direções procurando o quadro de pano, os filhos procuraram por toda a redondeza, mas ninguém encontrou o quadro de seda da mãe.
Depois do sumiço, a mãe começou a vagar como uma alma penada. O caçula tentava consolá-la como podia, preparando sopas de gengibre, mas a mãe ia definhando rapidamente.

Depois de algum tempo, a mãe falou para o filho mais velho:
– “Filho, se você quer que eu viva, vá procurar o meu quadro de pano e o traga de volta. Sem ele, é como se eu tivesse perdido uma parte da minha vida.

O filho calçou suas sandálias e saiu em direção ao leste. Andou meses a fio, até chegar a um desfiladeiro, onde havia uma casinha de pedra. Na frente da casa havia um cavalo esticando o  pescoço em direção a uns morangos. “Por que o cavalo não come os morangos?”  Perguntou o rapaz a si próprio. “Por que será que ele fica assim esticando o pescoço e de boca aberta?”
Ao se aproximar, constatou que o cavalo era de pedra. Ficou muito surpreso com isso. Enquanto estava lá contemplando o cavalo, estarrecido, uma velha sorridente saiu da casa de pedra.
– “O que você está procurando, meu filho?” – ela perguntou, cordialmente.

– “Estou procurando um quadro de pano que nossa mãe teceu”, respondeu o filho mais velho. “Nele minha mãe tinha reproduzido uma paisagem com uma casa, um riacho, um jardim, aves, o sol e as flores. Para ela fazer esse quadro, não comemos bem durante anos. Mal ela acabou de tecê-lo, o vento o levou, Deus sabe para onde. Mamãe me pediu para procurá-lo. Por acaso não sabe onde ele está?”
– “Sim, sei” – falou a velha balançando a cabeça. “Foram as fadas da Montanha Ensolarada que pegaram emprestado o quadro. Querem usá-lo como modelo para tecerem um brocado igualmente bonito”.
– “Fico feliz em saber para onde dirigir meus passos para reencontrá-lo” – disse o irmão mais velho, com um suspiro de alívio. “A senhora poderia me indicar o caminho da Montanha Ensolarada? Quero ir logo lá, só assim vou ficar tranquilo”.
– “É fácil dizer, mas difícil de realizar” – disse a velha com um riso silencioso. “Só se pode chegar lá montado neste cavalo aqui”.
– “Mas este cavalo é de pedra!” – observou o irmão mais velho.
– “Pouco importa” – disse a velha. “O cavalo voltará à vida assim que você implantar seus dentes nas gengivas dele, para que ele possa comer os morangos. Se você quiser, eu te ajudo a arrancar seus dentes com aquela pedra”.

O filho mais velho olhou para a velha espantado. Seus joelhos tremiam.

– “E isto ainda não é nada” – continuou a velha, parecendo não ter percebido o espanto do rapaz. “O cavalo fará você atravessar as chamas de um vulcão e o gelo de uma geleira, e só depois, além do mar, você vai encontrar a Montanha Ensolarada e as fadas. Agora, se durante o percurso você suspirar uma vez apenas, as chamas vão reduzi-lo a cinzas, os pedaços de gelo da geleira vão quebrá-lo todo e as ondas do mar vão afogá-lo”.
O filho mais velho recuou dois passos, olhando para o caminho por onde tinha vindo. A velha sorriu:
– “Se você não estiver disposto, não se esforce! Melhor voltar para casa. Eu vou lhe dar uma caixinha cheia de moedas de ouro para a sua caminhada”.
– “A senhora vai me dar, sem mais nem menos, estas moedas, sem nada em troca?” – perguntou o irmão mais velho, incrédulo, mas seduzido.
– “Sim, assim por nada. Ou, se você quiser, para que você coma e não sinta fome” – respondeu a estranha velhinha.
– “De fato, é verdade, prefiro voltar pra casa – disse o irmão mais velho, pegando as moedas de ouro e sumindo pelo mesmo caminho pelo qual tinha vindo. Ao chegar numa encruzilhada, falou para si mesmo: “Para uma pessoa apenas, essas moedas são suficientes, mas para quatro são poucas. Melhor eu ir à cidade do que voltar para casa. Vou viver como um senhor!” E tomou o caminho que levava à cidade.
Vendo, com o tempo, que o filho mais velho não voltava, um dia a mãe falou para o segundo filho:
– “Seu irmão está viajando, Deus sabe onde. Sem dúvida se esqueceu de nós. Vá, meu filho, vá ver se encontra meu belo quadro de pano”.

O filho do meio calçou suas sandálias e se pôs a caminho. Andou um dia, uma semana, um mês e chegou à casinha de pedra. Viu o cavalo de pedra esticando o pescoço em direção aos morangos. A velha apareceu na porta, perguntando:
– “Que bons ventos o trazem por aqui, meu filho?”
– “Estou à procura de um quadro de pano que minha mãe teceu. O vento o levou” – respondeu o segundo filho.
– “Seu irmão mais velho já passou por aqui” – disse a velha com um suspiro, “mas teve medo de ir reconquistar o quadro de pano, porque teria que atravessar chamas e geleiras montado naquele cavalo”.
– “Mas é um cavalo de pedra!” – estranhou o filho do meio.
– “Se você deixar eu arrancar seus dentes com uma pedra para implantá-los no cavalo, ele reviverá, comerá os morangos e poderá levá-lo até as fadas da Montanha Ensolarada, que irão lhe devolver o quadro”.
– “Era só o que faltava, deixar extrair meus dentes!” – disse o irmão do meio alarmado. “Prefiro voltar para casa”.
– “Neste caso, vou lhe dar um cofrezinho cheio de moedas de ouro. Seu irmão também as recebeu”.
“Então foi por isso que meu irmão não voltou pra casa”, pensou o irmão do meio. “E fez bem. Aproveitou melhor o seu dinheiro em outro lugar”. Então o irmão do meio pegou a caixinha com as moedas de ouro que lhe oferecia a velha e agradeceu educadamente, pensando em sumir o mais rapidamente possível de lá e ir direto para a cidade. “Agora eu vou aproveitar a vida! Por que iria repartir com os outros?”
Ao cabo de mais um mês, a mãe chamou o caçula e lhe disse:
– “Filho, me sinto fraca como uma mosca e, se não encontrar o meu quadro, creio que não vou resistir por muito tempo mais. Meus dois filhos maiores devem estar passeando, quem sabe onde? Sem dúvida se esqueceram de nós. Em você, sempre tive mais confiança. Vá, pois, à procura de meu quadro”.
O filho caçula calçou suas sandálias e partiu. Chegou ao desfiladeiro em frente da casinha de pedra e do cavalo de pedra com o pescoço esticado para os morangos. Na porta da casa se encontrava a velha, que parecia esperar por ele.

Ela o recebeu dizendo:
– “O caminho que leva para o quadro de pano é difícil. Os seus irmãos maiores preferiram receber de mim uma caixinha com moedas de ouro e ir gastá-las na cidade”.
– “Eu não temo nada” – disse o caçula – “e não preciso de ouro. As moedas de ouro não irão devolver a saúde a minha mãe. Mas, que devo fazer para recuperar o quadro de brocado?”
A velha explicou ao caçula o caminho que atravessava as chamas e o gelo. Também lhe disse que poderia reanimar o cavalo se arrancasse os próprios dentes e os implantasse na boca do cavalo. Mal acabara de lhe dar esta explicação, o rapaz já tinha pego uma pedra, quebrado seus dentes e implantado na boca do cavalo. O cavalo se reanimou, engoliu os dez morangos e o rapaz montou nele, partindo imediatamente, rápido como o próprio vento.
– “Não se esqueça, não pode dar nenhum suspiro, mesmo que as chamas estejam queimando você ou o gelo ferindo seu corpo, senão você vai morrer!” – gritou a velhinha.

Ofegante, o moço cavalgava cada vez mais para o interior de rochedos, até chegar a um lugar cheio de chamas que saíam das entranhas da terra. O rapaz incitou o cavalo e atravessou a muralha de fogo. As chamas o queimavam e os asfixiavam, mas ele não deu nenhum suspiro. Já estava achando que as chamas iriam acabar com ele, quando o cavalo deu um grande salto e eles foram parar num caminho bem estreito e bem sombrio por entre os rochedos. O caçula enxugou o suor da face e respirou a plenos pulmões o ar fresco, incitando depois de novo o cavalo para continuarem a corrida. Andaram assim por muito, muito tempo, até que o rapaz começou a sentir um ar gelado. Ao longe ouvia-se um barulho estrondoso. Mais uma vez deu uma esporada no cavalo. Corriam como o vento, quando de repente o caminho estreito entre as rochas se abriu. O cavalo parou de supetão. O rapaz começou a tremer de frio. Olhando em volta, percebeu que se encontravam no meio de uma inundação marinha. Até onde a vista podia alcançar, só se via gelo. Era uma imensa geleira com enormes icebergs ameaçadores que se chocavam com grande estrondo. Do outro lado da geleira, avistava-se, bem longe, uma alta montanha verde, inundada pelo sol. “É a Montanha Ensolarada”, exclamou o caçula. “Rápido, meu querido cavalo, estamos quase chegando!” O cavalo, sem hesitar, jogou-se nas ondas geladas. Aquele gelo movediço queimava e feria a pele do cavaleiro, as ondas sacudiam-no e ameaçavam jogá-lo do alto do cavalo. Mas, o rapaz cerrou a boca e não deixou nenhum suspiro escapar de seus lábios. Quando já estava quase se afogando, o cavalo conseguiu alcançar a margem. O bom sol secou as roupas, cicatrizou as feridas e, antes que ele pudesse compreender o que se passava, já se encontrava no topo da montanha. Diante de seus olhos brilhava um palácio de cristal e, vindos do jardim, ouviam-se risos e cantos de umas jovens.

O rapaz entrou pelo portal de honra do pátio e apeou do cavalo. Viu na sua frente um grupo de belas moças ocupadas em tecer um pano. No meio delas encontrava-se o quadro de sua mãe. Ao perceberem o rapaz, as moças abandonaram seus teares e vieram ao seu encontro, rindo. Uma delas, bem miudinha, com um vestido vermelho encantou-o particularmente. A seguir, uma bela dama aproximou-se do rapaz. Ela usava um vestido brilhante como os reflexos do sol no mar. Seus cabelos compridos estavam presos por um pente de ouro.
– “Sou a rainha das fadas” – disse. “Nunca ninguém vem aqui. Por que você empreendeu esta viagem tão cheia de perigos?”
– “Vim à procura do quadro de pano de minha mãe” – disse o rapaz. “O vento trouxe-o até vocês e minha mãe ficou doente por causa disso”.
– “Não foi por mero acaso que o vento levou o quadro de pano de sua mãe, fomos nós que ordenamos que ele fizesse isso. Queríamos nos servir dele como modelo para tecermos também um lindo quadro. Se você puder emprestá-lo por mais esta noite, amanhã poderá levá-lo embora. Enquanto isso, você é nosso hóspede – falou sorrindo a rainha.
O rapaz parecia viver um sonho. As fadas o rodearam rindo e fizeram com que ele provasse o néctar e a ambrosia, como convém aos imortais. Logo em seguida continuaram seu trabalho. Ficaram tecendo a tarde toda. Ao cair o crepúsculo, suspenderam no teto uma pérola que brilhava na noite para poderem continuar tecendo até meia-noite. O rapaz estava esgotado de tantas emoções e adormeceu sem perceber. Enquanto isso, as fadinhas acabavam, uma após outra, seu trabalho no tear, indo se deitar. Somente a mais jovem ficou acordada, aquela que tinha agradado ao rapaz à primeira vista. Ela ficou olhando o quadro da mãe. Nenhuma fada tinha conseguido tecer um quadro tão lindo quanto o da mãe. Nenhum riacho brilhava tanto quanto aquele que tinha sido tecido com suas lágrimas, e nenhum sol queimava tanto quanto ao que fora tecido com as lágrimas do sangue dela. A jovem olhou o rapaz adormecido e teve uma ideia. Pegou um fio e bordou no quadro da mãe uma fadinha de vestido vermelho, em pé, perto do lago, olhando para os peixes vermelhos.

O rapaz acordou à meia-noite. A sala estava vazia. Só havia lá o quadro tecido por sua mãe. Ficou um pouco admirado e depois pensou: “Por que esperar até amanhã? Minha mãe está doente e seu estado piora a cada dia”. Enrolou, pois, o pano, colocou o casaco, montou no cavalo e se pôs a caminho. Foi em vão que as ondas do mar lançaram nele os maiores blocos de gelo e que as chamas do vulcão tentaram engoli-lo. O rapaz não deu suspiro nenhum e, antes que pudesse se dar conta, estava na frente da casinha de pedra. A velhinha já estava espiando a sua chegada pela porta.
– “Estou feliz de vê-lo de volta, meu filho. Você é um rapaz bom e valente. Você conseguiu o que queria. Eu vou devolver-lhe seus dentes”.
Retirou os dentes do cavalo e os reimplantou na boca do rapaz. No mesmo instante o cavalo virou pedra.
– “Pegue essas sandálias de pele de cervo” – disse ainda a boa velha. “Ao calçá-las, você retornará à sua casa no mesmo instante”.
O rapaz agradeceu muito a boa velha pela sua ajuda, calçou as sandálias de pele de cervo e, sem saber como, foi parar na frente da casa onde tinha nascido. Uma vizinha aproximou-se ao vê-lo chegar. De cabeça baixa, disse a ele:
– “É bom que você tenha voltado. Ninguém sabe o que vai acontecer com a sua mãe. Não sai mais de casa, enxerga cada vez menos. Não sei, não sei…”
O rapaz entrou correndo em casa, gritando:
– “Olhe mamãe, olhe logo!” E mostrou o pano que tinha guardado debaixo de seu casaco. O quarto se iluminou todo quando ele desenrolou o brocado.

Quando a mãe percebeu que o filho tinha trazido seu quadro de volta, deu um grito de alegria. No mesmo instante, estava curada. Pulou fora da cama, surpresa ao ver as forças lhe voltarem. Olhou para o quadro e, de repente, estava enxergando muito bem. Depois, rogou ao filho:
– “Leve o quadro para fora, filho, para eu poder vê-lo melhor”.
O filho levou o quadro até a luz exterior e o desenrolou. As cores brilhavam. De repente, houve uma ventania e o quadro foi se desenrolando mais longe, cada vez mais longe, até cobrir toda a paisagem em volta. Tão longe quanto se podia enxergar, viam-se campos de milho dourado, manadas de ovelhas, nuvens de pintinhos amarelos correndo por todo lado no meio de patinhos; um belo jardim, atravessado por um riacho, e as mais lindas flores. Tudo na natureza era como no quadro. Das casinhas prateadas saíam agora os vizinhos, maravilhados, não acreditando no milagre.
O filho pegou a mãe pela mão e a levou para o jardim. Foram devagar em direção ao lago, não se cansando de ver tantas maravilhas. De repente, o rapaz parou estupefato, o coração batendo a mil por hora. Perto do lago estava a fadinha miudinha de vestido vermelho a lhe sorrir.
– “De onde você vem?” – perguntou o rapaz.
A mocinha pôs-se a rir, piscando os olhos.

– “Eu me bordei no quadro de sua mãe” – murmurou – e você me trouxe junto. Já que o brocado tomou vida, meu lugar também é aqui.
A mãe olhou muito feliz.

– “Temos agora uma grande casa e uma filha que me fazia falta”.
A fada olhou para o rapaz, que se aproximou dela.

– “Você me aceita como esposo?” – perguntou bem baixinho.
Ela respondeu que sim com um leve sinal de cabeça.

Houve uma grande festa de casamento. Além dos vizinhos, a mãe convidou os mendigos da região. Os irmãos maiores souberam de tudo. Já fazia muito tempo que haviam gasto todas as moedas de ouro e, como estavam acostumados a serem alimentados pelos outros, tornaram-se mendigos. Mas, quando chegaram a casa e viram as mudanças que ali aconteceram, tiveram vergonha de suas roupas esfarrapadas e preferiram não entrar. Foram embora, perdendo-se no mundo.
O caçula, ao lado da mulher fada e da mãe, viveu feliz por muito tempo, numa região rica e ensolarada.

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